04 fevereiro 2013

Reality show: manipulação e incoerências



            O ser humano constrói uma história evolutiva. Não há dúvidas que somos hoje mais desenvolvidos que nossos antepassados. Muitas vezes esse processo ocorre à custa de valores que jamais deveriam ser relativizados, mas não é esse o ponto que iremos abordar.
            Nosso objetivo nessa breve reflexão é levantar questões acerca do modo como nossa inteligência é tratada por certos controladores de opinião de massa, em especial certo tipo de programa que explora a curiosidade, inverte a lógica entre o público e o privado e faz com que transformemos uma realidade fictícia e artificial em principal tema de nossas conversas.
            Quando paramos diante de uma televisão e acompanhamos atentos aos conflitos vividos por pessoas confinadas em um ambiente insalubre, precisamos desenvolver a capacidade de ir além daquilo que vemos e ouvimos; devemos amadurecer nosso conceito de descontração e entretenimento para não sermos tratados como infantis e irracionais.
            Por trás dos majestosos conflitos que presenciamos nesses programas, existem “mentes brilhantes” (entre aspas mesmo!) encarregadas em criar situações que geram ou potencializam os embates; aquilo que conseguimos assistir, principalmente na TV aberta, é fruto de exaustivo trabalho de edição capaz de nos fazer conversar, pensar e concluir o que for mais conveniente para quem esta no controle do programa.
            A lógica dessas propostas é traiçoeira, pois desrespeita a capacidade humana usando um discurso atraente e aparentemente válido: Dizem que o telespectador é quem decide, basta votar! O voto custa uma pechincha, não faz grande diferença no bolso do telespectador. Mas a soma desses centavos faz boa diferença no bolso de quem a recebe. O telespectador paga para ser exposto sob a alegação de que esta decidindo.
            Para complementar a tragédia e dar a sensação de que o telespectador é inteligente e está sendo tratado com respeito, há sempre alguém que cumpre o papel de intelectual ou de cientista e apresenta uma pseudo-reflexão. Geralmente trata de uma abordagem gostosa de ser ouvida para que todos se sintam alimentados culturalmente. Um olhar atento vê logo a incompatibilidade entre esses discursos bonitos e as cenas que eles tentam ilustrar.
            Mas o que tudo isso tem a ver com a ideia de evolução trazida no início?
            Ora, esses programas desconsideram a evolução humana e tratam as pessoas como subdesenvolvidas racional e emocionalmente; levam à perpetuação de futilidades; estimulam a não percepção das reais circunstâncias do povo que é manipulado por eles; consideram, enfim, o ser humano como marionete.
            Como as perguntas são capazes de nos fazer evoluir, retirando-nos das trevas e nos levando à luz, devemos ousar algumas interrogações:
Quem mais ganha com esse tipo de programa: os participantes, a emissora de TV, os patrocinadores ou o telespectador? Aliás, o que realmente ganha o telespectador quando fica absorvido (viciado em alguns casos!) pelas notícias desses programas?
            As provas, jogos e brincadeiras apresentados aos participantes possuem algum tipo de segunda intenção ou tudo o que pretendem se encerra no que é visto e falado?
            Será mesmo o telespectador quem decide as questões cruciais do programa ou ele não passa de uma peça importante na arquitetura de um lucrativo projeto financista?
            O telespectador é tratado como pessoa inteligente ou é considerado um fofoqueiro que gosta de espiar o que os outros fazem dentro de casa? Espiar a vida alheia é uma virtude ou um vício?
            Qual é a real importância de saber o que um grupo de pessoas interessadas em autopromoção está fazendo dentro de uma casa?
            Essa prática de expor pessoas a situações ridículas e sofríveis é o que queremos para nossa sociedade? Mais que isso, será que concordamos coma as experiências de torturas praticadas nesses jogos?
            Que valores estão em jogo nesses programas? Queremos fazer parte de uma sociedade que aplaude os que fazem qualquer coisa pelo dinheiro ou pela fama?
            É bom pensarmos um pouco para não colaborarmos com aquilo que não concordamos e não sermos cúmplices das posturas que ignoram a capacidade evolutiva do ser humano. Os “centavos” que são insignificantes para nós individualmente, podem se transformar em poderosos recursos investidos contra nossos valores e contra nossa dignidade.

31 janeiro 2013

CAMAPNHA DA FRATERNIDADE - 2013 - Eis-me aqui, envia-me



          A Campanha da Fraternidade de 2013 – CF-13 – propõe ampla reflexão sobre a Juventude. A Campanha tem como tema Fraternidade e Juventude e como lema Eis-me aqui, envia-me.
          O lema encontra-se num contexto do livro do profeta Isaias dentro do qual há uma pergunta feita pelo próprio Deus: “Quem é que vou enviar? Quem irá de nossa parte?” Ao apelo de um Deus que deseja libertar seu povo das opressões, aparece a figura do profeta que responde: “Eis-me aqui, envia-me” (Isaias 6, 8), logo após a aceitação da missão, Deus envia seu profeta-servo para dirigir-se ao povo.
          Embora nossa história esteja marcada por desafios e opressões diferentes daqueles que motivaram o profeta no Primeiro Testamento, Deus continua perguntando aos homens e mulheres, em especial aos jovens: “Quem irá de nossa parte?” e a Igreja do Brasil, através da CNBB, abre-se para refletir sobre a exigência de reconhecer, na juventude, indispensáveis e importantes profetas a serem enviados.
          Evidentemente o envio da juventude passa pela renovação da capacidade de acolher. A Igreja, os educadores, os pais, enfim, todos os seguimentos da sociedade precisam descobrir novas formas de acolher uma juventude que forma sua personalidade num contexto de revoluções tecnológicas e de esvaziamento de valores.
          Essa necessidade de uma acolhida que antecede o envio encontra-se bem apresentada no objetivo geral da CF-13: “Acolher os jovens num contexto de mudança de época, propiciando caminhos para seu protagonismo no seguimento a Jesus Cristo, na vivencia eclesial e na construção de uma sociedade fraterna fundamentada na cultura da vida, da justiça e da paz”.
          A Igreja cristã precisa do jovem para se rejuvenescer, mas essa necessidade extrapola o espaço religioso e eclesial. A sociedade também clama por uma juventude que marque de modo consciente e responsável seu espaço e que assuma a vanguarda para a superação de contradições históricas, sociais e raciais; é latente a expectativa de termos uma juventude que tome as rédeas de sua história e que ofereça, em todos os espaços, posicionamentos que desafiem os conservadorismos e as estruturas de opressão.
          Esperar o envolvimento da juventude nas principais questões da humanidade não é exigir além do que o jovem é capaz de fazer, ao contrário, uma leitura histórica (bíblica ou não) revela que faz parte da natureza do jovem aceitar desafios e lutar para a renovação. O texto-base da CF-13 faz menção a diversos jovens presentes na história bíblica e na história da Igreja que deixaram sua marca ao assumirem o chamado. A realidade continua precisando de jovens dispostos a torná-la melhor. A História humana, pela sua dinamicidade, permanece aberta e demanda pessoas com coragem para fazê-la evoluir.
          Os desafios são muitos. Precisamos desenvolver boas estratégias para lidar com as novas tecnologias e fazer com que elas deixem de alimentar o individualismo e passem a instrumentos que levem ao real espírito de comunidade e de coletividade; precisamos nos abrir para uma acolhida que considere o jovem como interlocutor e cúmplice na construção da história e não como destinatário das ações dos adultos ou convidados ilustres a uma casa que é nossa e não deles.
          Todos devemos ter o espírito jovem para sermos capazes de contribuir com a evolução e a renovação da Igreja e da Sociedade. A jovialidade faz parte da essência do cristianismo e de uma sociedade que valoriza a criatividade humana. Com a coragem que caracteriza a juventude digamos todos: Eis-nos aqui, envia-nos.

23 janeiro 2013

A Conversão de Paulo: um convite ao testemunho coerente



          A liturgia da Igreja, no dia 25 de Janeiro, nos propõe refletir e rezar em torno da Conversão de Paulo: uma oportunidade especial para alimentarmos nossa fé e conversão permanente.
          Saulo (nome de Paulo antes da Conversão) seguia para Damasco com o objetivo de perseguir os cristãos; já próximo à entrada da cidade, misteriosas ocorrências mudam completamente sua vida e fazem dele um dos maiores defensores e propagadores da Fé Cristã (Atos dos Apóstolos 9, 1-25).
          De modo livre e despretensioso, desse intrigante evento da Conversão de São Paulo, podemos extrair alguns apontamentos que nos auxiliam em nossas reflexões.
          O primeiro está vinculado à coerência de Paulo. A vida desse apóstolo demonstra com muita clareza que ele não assume sua religiosidade pela metade. Tanto na condição de Judeu, como no testemunho da fé cristã, Paulo está todo inteiro. Não foi meio judeu ou meio cristão.
          Paulo se envolvia com sua Religião; participava ativamente dos desafios; transformava a fé que professava em testemunho e luta. Não foi um judeu omisso nem um cristão morno. Nas duas experiências demonstrou disponibilidade, vigor e coragem para o serviço.
          Outro ponto interessante vincula-se à natureza da conversão – mudança de rumo. A conversão pressupõe a mudança de sentido, que ocorre mediante a consciência de que se caminha para o lado errado. Paulo tinha clareza do rumo de sua caminhada antes de convergir/converter: era um obstinado defensor do judaísmo, portanto, sabia quais eram as consequências e implicações das escolhas que fazia e foi mediante o confronto entre duas possibilidades que ele toma outro Caminho.
          Ao identificar o equívoco no sentido da viagem que fazia, ou seja, ao se dar conta de que suas escolhas o distanciavam de seus maiores anseios, Paulo assume os riscos de tomar o Caminho certo e arca com os obstáculos dessa radical decisão: torna-se cristão e passa a responder corajosamente pelos ideais da fé pronunciada por Jesus. É bom realçarmos que Paulo converteu-se e continuou em atividade, jamais parou.
          Um terceiro ponto que pode motivar nossa reflexão é a sensação de confusão e cegueira que toma conta de Paulo após tomar consciência dos acontecimentos que o envolvem. Paulo fica cego, é conduzido para dentro da cidade e é encontrado, posteriormente, orando a Deus.
          Toda conversão supõe dor e perdas. Ao descobrir que estava desenvolvendo atividades inadequadas Paulo perde, momentaneamente, a capacidade de ver o caminho certo para onde seguir. Precisa de ajuda, primeiro das pessoas, depois do próprio Senhor, a quem busca na Oração.
          Mesmo sem conseguir entender muito bem o que está ocorrendo com ele, Paulo é capaz de permitir-se conduzir e, mais que isso, mantém-se numa atitude de oração e de súplica: Manifestos desejos da companhia do Senhor.
          A conversão de São Paulo é um paradigma que podemos usar para pensar e refletir sobre as diversas conversões que precisamos fazer todos os dias em nossas vidas. Todo cristão está sempre exercitando a capacidade de conversão/convergência. Às vezes acerca de pontos mais graves e sérios, outras vezes em relação a questões mais simples, porém não menos importantes.
          Iluminados pelos bons exemplos da conversão de Paulo, podemos nos perguntar: Como tem andado nossa lealdade à Religião que professamos? Como temos nos comportado quando tomamos consciência de que precisamos abandonar certas altitudes que nos distanciam do Caminho do Senhor? Até que ponto temos permitido que a Comunidade e o próprio Senhor nos conduza no Caminho?
          Deus contou com a conversão de Paulo para marcar a história do cristianismo e conta com nossa permanente conversão para continuar fazendo seu Reino acontecer. Convertamo-nos!

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