17 setembro 2013

Voluntariado: sinal de coerência e coragem a serviço da vida!

            Por que uma pessoa se dispõe a ser voluntária em alguma situação? Que motivos levam alguém a deixar momentaneamente seus afazeres pessoais para colocar-se a serviço de alguma causa? A presença dos voluntários é crescente em nossa sociedade. Cada vez mais encontramos pessoas dispostas a dedicarem um pouco de si mesmas para a promoção ou o bem estar de outros.
            O voluntariado é um gesto de liberdade. Como a própria palavra indica, o voluntário é alguém que se oferece para contribuir com algo ou para participar de alguma proposta por sentimento de gratuidade.
            No trabalho do voluntário é possível percebermos valores humanos que precisamos realçar nos dias atuais; é possível identificarmos grandes sinais da esperança e do otimismo que garantem a validade de continuar acreditando no ser humano e alimentando a certeza de sua evolução, apesar de muitas notícias insistirem no contrário.
            Os voluntários resgatam a beleza e o significado do serviço ao outro como modo de construção de uma vida melhor. Colocar-se à disposição de alguém é dizer com gestos, mais do que com palavras, que o outro é importante e merece ser cuidado; é traduzir, de modo prático, que a humanidade presente no outro é digna de reverência e suficiente para nos fazer mover respeitosamente em sua direção para servir.
            A ação dos voluntários indica também a existência de uma lógica diferente da predominante na linguagem mercadológica de nossos dias. O voluntário quebra a convicção individualista e egocêntrica que sustenta a busca da maioria das pessoas de nossa sociedade, pois é capaz, muitas vezes, de experimentar um paradoxo: servir a quem não pode pagar e receber um “pagamento” completamente diferente do dinheiro. Para o voluntário, a certeza de que colaborou com alguém é suficientemente satisfatória e, talvez mais cara, do que qualquer valor pecuniário.
            Por fim o voluntário ensina ainda duas coisas: a gestão do tempo e a coragem de fazer o que precisa ser feito.
Quanto ao tempo, a maioria dos voluntários não são pessoas desocupadas, ao contrário, são homens, mulheres e jovens que têm uma vida corrida e cheia de compromissos, mas são capazes de gerenciar de tal modo seu tempo que lhes é possível dedicarem-se à promoção e ao cuidado de outros sem deixarem de cuidar de si mesmos e de suas famílias. Isso é uma grande lição, afinal, há pessoas que reclamam insistentemente que não têm tempo para nada e muitas vezes essas pessoas mal cuidam de si mesmas!
            Em relação a terem coragem de fazer o que precisa ser feito, os voluntários merecem destaque. O voluntário percebe a situação de fragilidade próxima de si – identifica certo problema que demanda ajuda – descobre com o quê e como pode ajudar, oferece-se para servir e, o mais importante: vai lá e faz o que está ao seu alcance. Sai da teoria para a prática; busca vivenciar a coerência entre as boas ideias e as boas práticas que concretizam essas ideias. Às vezes vemos a necessidade, sabemos o que fazer, sabemos que podemos fazer, mas na hora de colocar em prática... falta-nos a coragem para sairmos de nós mesmos e irmos ao encontro do outro.
            Existem várias modalidades de voluntariado: desde as mais institucionais e explícitas até as mais informais e discretas. A vida de alguém sempre fica melhor quando nos dispomos a, livremente, fazer algo para ajudar. Podemos e devemos resgatar a beleza do serviço desinteressado ao outro como modo de contribuir com nossa parcela para a construção de uma sociedade melhor.
            Não há ninguém que seja tão ocupado que não possa colocar-se a serviço. Trata-se de aprender com os voluntários que uma simples ação gratifica tanto quem é beneficiado por ela quanto quem a realiza.
            Sem ingenuidades ou falsos otimismos, os voluntários nos ensinam que um pouco de doação e cuidado uns com os outros torna nossa existência mais significativa e feliz.

Descubra com quais gestos você pode praticar, voluntariamente, algum tipo de serviço ao próximo e experimente a sensação de ajuntar tesouros diferenciados, tesouros que não enferrujam!  

05 agosto 2013

Qual é o limite para nos ocuparmos dos problemas ou sofrimentos das outras pessoas?

            Qual é o limite para nos ocuparmos dos problemas ou sofrimentos das outras pessoas? Esta é uma pergunta muito complexa, pois cada caso pode inspirar uma reflexão e uma resposta própria.
            De um modo geral, podemos dizer que há situações de sofrimento que decorrem de nossas próprias escolhas, mas há outras que emanam dos comportamentos de pessoas ligadas a nós, como familiares ou amigos próximos.
Podemos dizer que o ideal é que cada pessoa resolva seus próprios problemas; que cada um se acerte com as consequências das próprias ações; que todo sujeito seja autônomo na condução da própria vida.
Na prática, as coisas não acontecem bem assim. Primeiro, porque muitos problemas são, no momento em que estão ocorrendo, maiores que nossa capacidade de resolvê-los, ou seja, é razoável que no decorrer da vida enfrentemos situações que demandem apoio e ajuda de pessoas mais experientes e maduras; segundo, porque vivemos em coletividade e as circunstâncias da vida não nos afetam de modo isolado.
Podemos partir deste ponto: é legítimo que os problemas de uns afetem os outros e que haja uma corresponsabilidade para a busca de soluções para tais situações. Até certo ponto isso é aceitável e necessário para que construamos uma cultura de solidariedade.
O desconforto advém das situações que extrapolam o limite da razoabilidade estando marcadas por sinais de patologia ou da fala de real interesse pelo outro, ou seja, há pessoas que buscam as outras para resolverem problemas que dariam conta de resolver e que constituem sua exclusiva parcela de responsabilidade pela própria vida.
Ninguém pode ou deve se sentir responsável, além do limite, pelos problemas do outros. Cada pessoa é responsável por sua vida, mesmo quando se esconde por trás da fragilidade emocional ou de eventuais situações de um passado traumático. Em outras palavras, cada pessoa é autora da própria vida e da própria história, mesmo quando faz delas algo sem brilho. Justificar ou transferir para outros as razões de ser da própria vida não faz de ninguém menos responsável por tudo o que lhe acontece.
Por outro lado, há pessoas que aceitam o papel de carregarem fardos que não são delas. Às vezes por culpa; às vezes por uma falsa compreensão do lugar que ocupam na vida do outro; às vezes por acharem que desse modo estão ajudando... de qualquer modo, carregar para o outro o fardo que ele dá conta ou que é de sua exclusiva responsabilidade não  contribui com o amadurecimento, ao contrário, alimenta a imaturidade e, por vezes, conduz a níveis mais profundos de problemas e até de doenças.
Na condição de familiares (especialmente mães e pais) ou de amigos próximos, é preciso estabelecer, com clareza, o que constitui a vida e os problemas do outro e não entrar no jogo desrespeitoso ou doentio que nos envolve e seduz para carregar fardos que não são nossos. É necessário ter coragem para “forçar” o outro a crescer; é preciso ser saudável emocionalmente para dizer um basta e deixar o outro se construir autonomamente.
Quem carrega aquilo que pertence ao outro faz muito mal para si e para o outro e, por uma questão de coerência com o que dissemos acima, não pode se esquivar de assumir que é responsável por isso.

Se alguém não nos respeita impondo suas responsabilidades sobre nós; se alguém está emocionalmente frágil ou doente, não é alimentando isso que iremos ajudar, ao contrário, devemos superar a vulnerabilidade e deixar claro que cada um deve carregar aquilo que compete a si, afinal, cada um tem uma vida. Então, que cada um assuma-a.

22 julho 2013

A busca equilibrada do Poder Judiciário como exercício de cidadania

Depois da promulgação da Constituição de 1988, é crescente no Brasil a consciência de que existe um Poder autônomo, forte, isento e capaz de oferecer aos indivíduos solução para os eventuais “conflitos” que não puderam ser resolvidos de modo pacífico ou administrativo. A crença de que se deve buscar pelos Direitos faz com que milhares de novas ações sejam iniciadas a cada dia. O brasileiro confia e recorre ao Poder Judiciário.
Essa confiança no Poder Judiciário é um dos sinais concretos da democracia e do republicanismo presentes em nosso meio. Quanto mais as pessoas confiam que têm a quem recorrer, mais se implementa um Estado Democrático de Direito.
Todas as pessoas têm direito de procurar o Judiciário a fim de terem sua pretensão processada e julgada. Esse é um sagrado direito garantido pela Constituição. Mas é importante salientar que tal direito não é apenas teórico, mas prático. Um exemplo dessa concretude é a obrigatoriedade de o Estado oferecer advogados gratuitos para aqueles que não podem contratá-los – Defensorias públicas, advogados dativos, de modo que a ninguém será negado acesso ao Estado-Juiz.
Além da disponibilização de defensores públicos e de advogados dativos, há algumas simplificações que facilitam o acesso das pessoas ao Poder Judiciário. Duas situações servem de referência: A primeira é a Justiça do Trabalho e a segunda são os juizados especiais.
Na Justiça do Trabalho qualquer pessoa pode pleitear direitos trabalhistas sem necessitar de advogado; nos juizados especiais (instituído para causas simples e de baixo valor pecuniário), qualquer pessoa pode demandar contra outra sem estar representado por advogado.
Mas é preciso tomar muito cuidado com essas facilidades apresentadas pela lei. Muitas vezes o que parece um direito, uma liberdade ou até uma facilitação pode esconder armadilhas perigosas que levam ao perecimento de vários direitos. Para causas muito simples, especialmente cujo valor seja inferior ao pagamento de honorários advocatícios, talvez seja interessante buscar, por conta própria, o Judiciário, mas para causas que demandam um mínimo de técnica e de conhecimento jurídico é recomendável consultar e contratar ajuda profissional.
Tendo em vista, ainda, o aumento de causas nos tribunais de todo o país, é legítimo importante fazermos outra análise: é recomendável nos perguntarmos, antes de propormos uma ação judicial, se já esgotamos os recursos disponíveis para solucionar o conflito. É mesmo necessário e indispensável que entremos com uma ação judicial?
Muitas vezes vemos situações que seriam legitimamente solucionadas a partir de um diálogo, de uma composição amigável se transformarem em longas ações judiciais. Há inúmeras situações que o bom senso e o espírito de civilidade dariam perfeita conta de resolverem. É preciso fugir do modismo da judicialização de todos os conflitos que temos.
O Poder Judiciário não é lugar de vingar ou de descontar a raiva que alguém tenha sofrido; não é caminho para enriquecimento sem causa através da busca de indenizações fantasiosas. Há pessoas que dizem que entrarão na justiça para fazer raiva na outra parte...
Por vivermos em uma sociedade tão complexa como a nossa é preciso saber dosar o que é relevante, sempre tendo em mente que fazemos parte de uma coletividade. O Poder Judiciário custa caro aos cofres públicos e deve ser buscado de modo equilibrado.

Vale como referência nessa avaliação o famoso ditado popular: “o pior acordo é melhor que a melhor demanda”. Todas as pessoas envolvidas nos conflitos - as partes, os advogados, os serventuários da justiça, o juiz - devem sempre buscar a conciliação.  

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Invista, antes de tudo, em seus jardins interiores, para ser capaz de ver a beleza dos jardins de fora.

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