24 outubro 2013

Modernidade e moralidade: caráter é essencial

            Os Tempos Modernos trouxeram consigo a certeza de que os antigos costumes e valores seriam descartados. O homem moderno e, em certa medida o homem atual, nutriu a convicção de que a saída para todos os problemas existenciais e sociais seria a inovação e o abandono de todos os sinais que estiveram presentes nas tradicionais formas de viver.
            Muita coisa boa ocorreu com essa ousadia; muitas barreiras foram superadas; inúmeros avanços em diversos campos da experiência humana e a sensação de que a vida torna-se melhor, mais suave e mais amparada.
            Por outro lado, e sem muito receio, podemos constatar vários prejuízos, como o individualismo, a falta de sentido para a vida, a sobreposição do ter em relação ao ser e, como objeto dessa reflexão, a perda da noção de caráter.
Nenhuma sociedade pode ser duradoura e consistente sem desenvolver em seus membros a capacidade de agir com caráter. O caráter é o conjunto de elementos que transpassam a personalidade e fazem do respeito um valor inegociável.
            O caráter não é algo simples ou que se forma com facilidade. Ele depende da conjugação de dois fatores especiais e interdependentes: a teoria e a prática, ou seja, o caráter emerge na personalidade do indivíduo quando os adultos discursam sobre a forma correta de se comportar, mas também praticam comportamentos adequados.
            A construção do caráter, portanto, depende de um árduo trabalho de educação e convivência que leve o indivíduo em formação a perceber a supremacia de alguns valores, e mais: a compreender que tais valores devem ser observados e vivenciados independentemente de quaisquer ganhos ou negociações, pois são valores em si mesmos, ou seja, uma pessoa de caráter age corretamente pelo simples fato de ter percebido que essa é a forma de agir e não porque vai obter algum retorno ou “pagamento” pela ação correta.
            O caráter se forma quando pais, educadores e líderes religiosos vão ensinando às crianças, por meio de palavras e exemplos, a importância da honestidade; a grandeza da solidariedade; a necessidade da tolerância/respeito a todo tipo de diferença; a capacidade de não julgar e de não falar mal dos outros; a beleza escondida na diversidade humana... o caráter brota na personalidade quando ensinamos às crianças que a dor que dói no outro doeria em mim também! Que o respeito pelo outro reflete o respeito por mim mesmo, não sendo possível haver respeito em relação a mim se deliberadamente falto com o respeito em ralação ao outro.
            A formação do caráter não está fora de moda e não pode ser encarada como algo superado pelas inovações modernas. Precisamos de homens e mulheres de caráter. Continuamos tendo muita necessidade de pessoas que não sintam vergonha de se posicionarem diante de injustiças e desonestidades. Faz-nos falta pessoas que tenham coragem de escolher um comportamento reto, que fujam do relativismo, o qual, ironicamente, absolutiza a ausência de caráter como regra de convivência.
            A responsabilidade pela formação de uma geração que tenha caráter é dos adultos e deve ser exercida de modo compartilhado pela família, pela escola, pela religião e por todas as instituições e pessoas que estão comprometidas com uma sociedade melhor.
            Viver em uma sociedade em que as pessoas têm caráter é mais vantajoso. O mau-caratismo gera insegurança ou cria uma falsa sensação de bem-estar, mas nenhuma sociedade vive bem quando se institucionaliza a falta de caráter, pois o ganho que se tem com a ação sem caráter é momentâneo e mascará uma dura realidade: os sujeitos ativos e passivos dessas ações mudam de lugar com muita facilidade e, geralmente, não gostamos quando somos a vítima.

            Caráter não é uma questão de moda ou de gosto. Caráter é essencial. 

17 setembro 2013

Voluntariado: sinal de coerência e coragem a serviço da vida!

            Por que uma pessoa se dispõe a ser voluntária em alguma situação? Que motivos levam alguém a deixar momentaneamente seus afazeres pessoais para colocar-se a serviço de alguma causa? A presença dos voluntários é crescente em nossa sociedade. Cada vez mais encontramos pessoas dispostas a dedicarem um pouco de si mesmas para a promoção ou o bem estar de outros.
            O voluntariado é um gesto de liberdade. Como a própria palavra indica, o voluntário é alguém que se oferece para contribuir com algo ou para participar de alguma proposta por sentimento de gratuidade.
            No trabalho do voluntário é possível percebermos valores humanos que precisamos realçar nos dias atuais; é possível identificarmos grandes sinais da esperança e do otimismo que garantem a validade de continuar acreditando no ser humano e alimentando a certeza de sua evolução, apesar de muitas notícias insistirem no contrário.
            Os voluntários resgatam a beleza e o significado do serviço ao outro como modo de construção de uma vida melhor. Colocar-se à disposição de alguém é dizer com gestos, mais do que com palavras, que o outro é importante e merece ser cuidado; é traduzir, de modo prático, que a humanidade presente no outro é digna de reverência e suficiente para nos fazer mover respeitosamente em sua direção para servir.
            A ação dos voluntários indica também a existência de uma lógica diferente da predominante na linguagem mercadológica de nossos dias. O voluntário quebra a convicção individualista e egocêntrica que sustenta a busca da maioria das pessoas de nossa sociedade, pois é capaz, muitas vezes, de experimentar um paradoxo: servir a quem não pode pagar e receber um “pagamento” completamente diferente do dinheiro. Para o voluntário, a certeza de que colaborou com alguém é suficientemente satisfatória e, talvez mais cara, do que qualquer valor pecuniário.
            Por fim o voluntário ensina ainda duas coisas: a gestão do tempo e a coragem de fazer o que precisa ser feito.
Quanto ao tempo, a maioria dos voluntários não são pessoas desocupadas, ao contrário, são homens, mulheres e jovens que têm uma vida corrida e cheia de compromissos, mas são capazes de gerenciar de tal modo seu tempo que lhes é possível dedicarem-se à promoção e ao cuidado de outros sem deixarem de cuidar de si mesmos e de suas famílias. Isso é uma grande lição, afinal, há pessoas que reclamam insistentemente que não têm tempo para nada e muitas vezes essas pessoas mal cuidam de si mesmas!
            Em relação a terem coragem de fazer o que precisa ser feito, os voluntários merecem destaque. O voluntário percebe a situação de fragilidade próxima de si – identifica certo problema que demanda ajuda – descobre com o quê e como pode ajudar, oferece-se para servir e, o mais importante: vai lá e faz o que está ao seu alcance. Sai da teoria para a prática; busca vivenciar a coerência entre as boas ideias e as boas práticas que concretizam essas ideias. Às vezes vemos a necessidade, sabemos o que fazer, sabemos que podemos fazer, mas na hora de colocar em prática... falta-nos a coragem para sairmos de nós mesmos e irmos ao encontro do outro.
            Existem várias modalidades de voluntariado: desde as mais institucionais e explícitas até as mais informais e discretas. A vida de alguém sempre fica melhor quando nos dispomos a, livremente, fazer algo para ajudar. Podemos e devemos resgatar a beleza do serviço desinteressado ao outro como modo de contribuir com nossa parcela para a construção de uma sociedade melhor.
            Não há ninguém que seja tão ocupado que não possa colocar-se a serviço. Trata-se de aprender com os voluntários que uma simples ação gratifica tanto quem é beneficiado por ela quanto quem a realiza.
            Sem ingenuidades ou falsos otimismos, os voluntários nos ensinam que um pouco de doação e cuidado uns com os outros torna nossa existência mais significativa e feliz.

Descubra com quais gestos você pode praticar, voluntariamente, algum tipo de serviço ao próximo e experimente a sensação de ajuntar tesouros diferenciados, tesouros que não enferrujam!  

05 agosto 2013

Qual é o limite para nos ocuparmos dos problemas ou sofrimentos das outras pessoas?

            Qual é o limite para nos ocuparmos dos problemas ou sofrimentos das outras pessoas? Esta é uma pergunta muito complexa, pois cada caso pode inspirar uma reflexão e uma resposta própria.
            De um modo geral, podemos dizer que há situações de sofrimento que decorrem de nossas próprias escolhas, mas há outras que emanam dos comportamentos de pessoas ligadas a nós, como familiares ou amigos próximos.
Podemos dizer que o ideal é que cada pessoa resolva seus próprios problemas; que cada um se acerte com as consequências das próprias ações; que todo sujeito seja autônomo na condução da própria vida.
Na prática, as coisas não acontecem bem assim. Primeiro, porque muitos problemas são, no momento em que estão ocorrendo, maiores que nossa capacidade de resolvê-los, ou seja, é razoável que no decorrer da vida enfrentemos situações que demandem apoio e ajuda de pessoas mais experientes e maduras; segundo, porque vivemos em coletividade e as circunstâncias da vida não nos afetam de modo isolado.
Podemos partir deste ponto: é legítimo que os problemas de uns afetem os outros e que haja uma corresponsabilidade para a busca de soluções para tais situações. Até certo ponto isso é aceitável e necessário para que construamos uma cultura de solidariedade.
O desconforto advém das situações que extrapolam o limite da razoabilidade estando marcadas por sinais de patologia ou da fala de real interesse pelo outro, ou seja, há pessoas que buscam as outras para resolverem problemas que dariam conta de resolver e que constituem sua exclusiva parcela de responsabilidade pela própria vida.
Ninguém pode ou deve se sentir responsável, além do limite, pelos problemas do outros. Cada pessoa é responsável por sua vida, mesmo quando se esconde por trás da fragilidade emocional ou de eventuais situações de um passado traumático. Em outras palavras, cada pessoa é autora da própria vida e da própria história, mesmo quando faz delas algo sem brilho. Justificar ou transferir para outros as razões de ser da própria vida não faz de ninguém menos responsável por tudo o que lhe acontece.
Por outro lado, há pessoas que aceitam o papel de carregarem fardos que não são delas. Às vezes por culpa; às vezes por uma falsa compreensão do lugar que ocupam na vida do outro; às vezes por acharem que desse modo estão ajudando... de qualquer modo, carregar para o outro o fardo que ele dá conta ou que é de sua exclusiva responsabilidade não  contribui com o amadurecimento, ao contrário, alimenta a imaturidade e, por vezes, conduz a níveis mais profundos de problemas e até de doenças.
Na condição de familiares (especialmente mães e pais) ou de amigos próximos, é preciso estabelecer, com clareza, o que constitui a vida e os problemas do outro e não entrar no jogo desrespeitoso ou doentio que nos envolve e seduz para carregar fardos que não são nossos. É necessário ter coragem para “forçar” o outro a crescer; é preciso ser saudável emocionalmente para dizer um basta e deixar o outro se construir autonomamente.
Quem carrega aquilo que pertence ao outro faz muito mal para si e para o outro e, por uma questão de coerência com o que dissemos acima, não pode se esquivar de assumir que é responsável por isso.

Se alguém não nos respeita impondo suas responsabilidades sobre nós; se alguém está emocionalmente frágil ou doente, não é alimentando isso que iremos ajudar, ao contrário, devemos superar a vulnerabilidade e deixar claro que cada um deve carregar aquilo que compete a si, afinal, cada um tem uma vida. Então, que cada um assuma-a.

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