12 dezembro 2013

A Felicidade não depende daquilo que nos falta, mas do bom uso daquilo que temos

            O título desse artigo parece um pouco estranho ou exagerado; talvez contraditório e inconsistente... merece, portanto, uma boa reflexão para explicar o que realmente pretende dizer.
Não podemos ser ingênuos ou hipócritas afirmando que a felicidade é um estado de espírito que não depende de quaisquer situações para existir. Uma felicidade experimentada na indiferença das circunstâncias da vida beira à patologia.
Mas também não devemos ceder aos imperativos de lógicas que nos induzem a pensar que a felicidade depende de termos sempre mais ou de adquirimos as últimas novidades da tecnologia ou da moda. Os extremos são bastante prejudiciais nessa questão, pois nos levam a criar fantasias a respeito da vida e da felicidade.
Fugir dos extremos e não cair na inércia do conformismo, eis um importante desafio a ser superado para compreender a felicidade e para se sentir feliz.
A felicidade exige que saibamos nos alegrar com o que temos e somos. É impossível ser feliz se não somos capazes de continuar desejando e nos satisfazendo com as coisas que já conquistamos. Quem projeta o momento ou a sensação de felicidade sempre naquilo que não tem jamais se sente feliz ou entende algo sobre felicidade, pois a felicidade sempre será adiada, já que sempre haverá algo que ainda não se tem.
A expectativa de que a felicidade somente virá quando for possível comprar algo ou quando peso e medidas corporais estiverem de acordo com certos padrões ou ainda quando as pessoas com as quais convivo mudarem alguma coisa é contraditória, constitui investimento contrário à identidade da felicidade.
Geralmente as pessoas que se posicionam no presente como expectadoras de uma felicidade do futuro têm dificuldade de perceberem que, no futuro, mesmo alcançando aqueles sonhos ou realizando os desejos, estarão ainda vivendo de expectativas, pois isso gera um ciclo vicioso: Não estou feliz agora porque preciso de algo que só terei depois. Quando o depois chega, dependerei de outra coisa que estará logo à frente...
Devemos ser capazes de nos realizar com o que temos e somos! Para sermos felizes precisamos conseguir sentir uma satisfação especial no contexto em que nos encontramos; precisamos ser capazes de nos orgulhar da distância que já percorremos e de sentirmos prazer por compartilhar um passado/presente/futuro harmonioso e estimulante.

É certo que devemos fugir do conformismo. Não queremos defender que o desejo de superação e de crescimento seja obstáculo para a felicidade, ao contrário, somos mais felizes quando temos consciência dos avanços que precisamos implementar em nossa vida, mas não podemos deixar de curtir as conquistas e de nos alegrar com o que temos e somos em função daquilo que queremos ter ou ser. Quem consegue a paz de ser feliz com o que tem alcança mais facilmente aquilo que ainda não tem e essa vitória apenas aumenta uma felicidade que a pessoa já experimentava, por isso é mais duradoura e significativa. 

27 novembro 2013

A sabedoria escondida na arte de ouvir

            É conhecido o ditado que diz que a razão de termos dois ouvidos e uma boca está na necessidade de ouvirmos mais e falarmos menos! Há muita sabedoria nesse ensinamento.
            Somos vítimas de um modelo de organização social que nos força a conversar pouco, por isso é comum encontrarmos pessoas que estão com grande necessidade de falar, mas que não tem quem as ouça com ternura e respeito.
            Ouvir é uma arte que precisamos praticar e desenvolver, pois numa audição atenta e respeitosa somos capazes de mergulhar no universo do outro e de compreender seus pontos-de-vista. Quando escutamos as pessoas, oportunizamos uma interação entre o mundo em que elas vivem e o nosso próprio mundo; possibilitamos ver a realidade com os olhos da outra pessoa.
            Mas ouvir é mais que escutar! Ouvir é mais que deixar o outro falar! Ouvir precisa ser mais que uma obrigação cansativa ou inevitável.
            Ouvir é interagir, muitas vezes através do silêncio, com o conteúdo falado e não falado trazido pelo interlocutor. Há uma mensagem que os ouvidos escutam e outra que é inaudível ao ouvido. Ouvir é estar aberto para captar esta mensagem que não passa pelos ouvidos.
            As palavras e gestos utilizados para a comunicação são apenas suportes que buscam revelar a mensagem que brota da vida e da intimidade do emissor. Quem escuta apenas aquilo que é falado corre muito risco de não conseguir ouvir o que efetivamente é dito.
            Seguindo essa linha de raciocínio, muitas pessoas se queixam de que não são ouvidas e tantas vezes têm razão, pois são apenas escutadas. A escuta é superficial, sem envolvimento, não compromete o receptor da mensagem e não satisfaz o emissor, cuja mensagem que saiu de si não foi realmente compartilhada. Ouvir implica em compartilhar da mensagem recebida, tomar parte daquele conteúdo.
            O ouvir atento precisa ser buscado e praticado. Podemos dizer que isso não é natural na maior parte das pessoas, mas pode ser construído com dedicação e esforço.
            A arte de ouvir está embasada em alguns valores e está a serviço da promoção da dignidade da pessoa humana. Podemos dizer que ouvir com atenção e envolvimento é sinal de que valorizamos e respeitamos as pessoas, de que as consideramos importantes para nós; ouvir é reflexo de nosso amor pela pessoa que nos fala.
            Algumas dicas podem nos ajudar a melhorar nossa capacidade de ouvir as pessoas que amamos: O ouvir atento implica em dedicar tempo ao outro. Não posso querer que a pessoa fale rápido demais, que seja objetiva, que vá direto ao ponto. A paciência é sinal de que aquela conversa é importante para mim também, por isso demonstro que sou capaz de compreender o tempo da outra pessoa!
Não é possível desenvolvermos nossa habilidade de ouvir se ficamos o tempo todo interrompendo quem está falando ou tentando adivinhar o que a pessoa está querendo dizer. Ouvir com atenção implica no exercício da humildade: não posso pensar que já sei o que a pessoa vai dizer; isso pode sinalizar arrogância e obstruir os canais da comunicação.
É importante também perceber que há situações em que nossa fala não é, nem de longe, o mais importante, pois a pessoa precisa apenas que alguém a ouça de verdade. Não tenho obrigação alguma de ter as palavras certas para dizer depois que ouço alguém!

            Saber ouvir é uma virtude que todos podemos praticar e essa arte torna a vida mais suave e harmoniosa. Você já ouviu alguém hoje?    

24 outubro 2013

Modernidade e moralidade: caráter é essencial

            Os Tempos Modernos trouxeram consigo a certeza de que os antigos costumes e valores seriam descartados. O homem moderno e, em certa medida o homem atual, nutriu a convicção de que a saída para todos os problemas existenciais e sociais seria a inovação e o abandono de todos os sinais que estiveram presentes nas tradicionais formas de viver.
            Muita coisa boa ocorreu com essa ousadia; muitas barreiras foram superadas; inúmeros avanços em diversos campos da experiência humana e a sensação de que a vida torna-se melhor, mais suave e mais amparada.
            Por outro lado, e sem muito receio, podemos constatar vários prejuízos, como o individualismo, a falta de sentido para a vida, a sobreposição do ter em relação ao ser e, como objeto dessa reflexão, a perda da noção de caráter.
Nenhuma sociedade pode ser duradoura e consistente sem desenvolver em seus membros a capacidade de agir com caráter. O caráter é o conjunto de elementos que transpassam a personalidade e fazem do respeito um valor inegociável.
            O caráter não é algo simples ou que se forma com facilidade. Ele depende da conjugação de dois fatores especiais e interdependentes: a teoria e a prática, ou seja, o caráter emerge na personalidade do indivíduo quando os adultos discursam sobre a forma correta de se comportar, mas também praticam comportamentos adequados.
            A construção do caráter, portanto, depende de um árduo trabalho de educação e convivência que leve o indivíduo em formação a perceber a supremacia de alguns valores, e mais: a compreender que tais valores devem ser observados e vivenciados independentemente de quaisquer ganhos ou negociações, pois são valores em si mesmos, ou seja, uma pessoa de caráter age corretamente pelo simples fato de ter percebido que essa é a forma de agir e não porque vai obter algum retorno ou “pagamento” pela ação correta.
            O caráter se forma quando pais, educadores e líderes religiosos vão ensinando às crianças, por meio de palavras e exemplos, a importância da honestidade; a grandeza da solidariedade; a necessidade da tolerância/respeito a todo tipo de diferença; a capacidade de não julgar e de não falar mal dos outros; a beleza escondida na diversidade humana... o caráter brota na personalidade quando ensinamos às crianças que a dor que dói no outro doeria em mim também! Que o respeito pelo outro reflete o respeito por mim mesmo, não sendo possível haver respeito em relação a mim se deliberadamente falto com o respeito em ralação ao outro.
            A formação do caráter não está fora de moda e não pode ser encarada como algo superado pelas inovações modernas. Precisamos de homens e mulheres de caráter. Continuamos tendo muita necessidade de pessoas que não sintam vergonha de se posicionarem diante de injustiças e desonestidades. Faz-nos falta pessoas que tenham coragem de escolher um comportamento reto, que fujam do relativismo, o qual, ironicamente, absolutiza a ausência de caráter como regra de convivência.
            A responsabilidade pela formação de uma geração que tenha caráter é dos adultos e deve ser exercida de modo compartilhado pela família, pela escola, pela religião e por todas as instituições e pessoas que estão comprometidas com uma sociedade melhor.
            Viver em uma sociedade em que as pessoas têm caráter é mais vantajoso. O mau-caratismo gera insegurança ou cria uma falsa sensação de bem-estar, mas nenhuma sociedade vive bem quando se institucionaliza a falta de caráter, pois o ganho que se tem com a ação sem caráter é momentâneo e mascará uma dura realidade: os sujeitos ativos e passivos dessas ações mudam de lugar com muita facilidade e, geralmente, não gostamos quando somos a vítima.

            Caráter não é uma questão de moda ou de gosto. Caráter é essencial. 

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Invista, antes de tudo, em seus jardins interiores, para ser capaz de ver a beleza dos jardins de fora.

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