04 junho 2014

Ser e Ter: outro enfoque

É comum vermos análises que partem desse binômio: ser/ter. De um modo geral, tais reflexões atribuem a questão da essência ao conceito de ser e ao ter são atribuídas as preocupações materialistas. É relevante essa metodologia.
Nesse artigo, todavia, busca-se fugir um pouco da visão clássica, especialmente no que diz respeito às associações realizadas em torno do ter, pois antes desse conceito vincular-se às expectativas financistas, expressa a forma como estabelecemos nossos relacionamentos com o mundo e com as pessoas.
Somos convencidos de que precisamos ter bons relacionamentos, ter bons amigos, ter pessoas de bem à nossa volta... Pouco se faz o discurso de que devemos ser tudo isso para as pessoas. Ser bons amigos, ser bom nos relacionamentos!
Os discursos promovidos pela cultura pós-moderna acabam nos convencendo a praticar um egocentrismo velado e perverso, pois continuam colocando o individuo no centro de todos os processos sociais e criando falsas sensações de êxito sob o pretexto de que devemos construir uma sociedade politicamente correta. Muitas vezes essas proposições são frágeis porque não indicam a responsabilidade pessoal e individual que cada um precisa assumir, ao contrário, permitem a falsa sensação de que apenas os outros devem fazer suas partes.
Por trás de slogans de grandes empresas, de certas manifestações religiosas, de tantas campanhas publicitárias esconde-se uma velha e macabra isenção do indivíduo por suas ações e uma equivocada percepção do papel de cada pessoa na construção de uma sociedade melhor.
Acreditamos que as pessoas precisam ter mais tolerância e educação no trânsito, muitas vezes, porém, não entendemos que isso implica que nós mesmos precisamos ser mais educados e tolerantes.
Compreendemos bem que o estado e a sociedade têm diversos deveres para com o cidadão, mas não nos percebemos como seres de deveres; ora, na medida em que tenho direitos, sou sujeito de deveres.
Sabemos que a lealdade é uma virtude importante e cara, por isso mesmo, queremos ter amigos leais; mas precisamos praticar essa mesma lealdade: preciso ser um amigo leal e não apenas querer ter um amigo leal.
Por uma questão de coerência e por fidelidade ao desejo de construirmos um mundo melhor, devemos empreender uma busca equilibrada do ser e do ter:
Quem quer ter o respeito das pessoas precisa ser respeitoso com todos: quem quer ter amigos leais, precisa ser leal amigo;
Quem quer ter um ambiente (trabalho, Igreja, casa) alegre e pacífico precisa ser pacífico e alegre nos lugares onde vive;
Quem espera ter representantes (políticos!) honestos e comprometidos precisa ser uma pessoa honesta e comprometida...

Faz parte de nossas responsabilidades assumirmos nossa parcela na construção daquilo que queremos ter. É imperativo, portanto, que nosso ser se aproxime o máximo possível daquilo que esperamos ter. É preciso ser para ter!

09 maio 2014

Uma busca por líderes capazes de contribuir com a história

Em nosso artigo anterior levantou-se uma polêmica acerca da existência de uma "crise de liderança" marcada pela adoção de pessoas sem trajetória de vida que justifique reconhecimento às mesmas: crianças e Jovens (artistas!) de comportamentos fúteis são eleitos como ícones a serem seguidos e ouvidos.
Toda deficiência é percebida em função de algum critério ou parâmetro, ou seja, para falarmos de crise de liderança é necessário que tenhamos um conceito-referência a partir do qual a crítica faz sentido.
O pressuposto aqui é: Os bons líderes são pessoas cuja vida, pensamento, produção e propostas são capazes de instigar as pessoas a serem melhores. Os líderes possuem capacidade para motivarem indivíduos e grupos a perceberem a vida de um modo melhor; desempenham, por aquilo que são e fazem, a função de despertarem a motivação que cada pessoa precisa para prosseguir e evoluir.
É possível encontrarmos bons líderes e é interessante pensarmos na hipótese de nós mesmos nos tornarmos bons líderes. Alguns possuem uma aptidão quase natural para liderar, outros desenvolvem e aprimoram essa habilidade. De todo modo, pessoas bem resolvidas e determinadas podem fazer muito bem para si mesmas e para os outros, na medida em que exercem liderança.
Muitas vezes os líderes são pessoas de destaque, reconhecidas por muitos como "modelo"; por outro lado, existem vários líderes mais discretos que estão próximos de nós e que contribuem de modo muito positivo com a vida das pessoas.
O ideal é que cada indivíduo seja autônomo na condução de sua história, mas essa autonomia não se opõe à possibilidade de vermos em algumas pessoas exemplos inspiradores. A lógica é: quando me inspiro em alguém que sabe o que quer e que tem uma vida compatível com aquilo que fala, aumento minhas chances de me fortalecer na busca de meus ideais; quando me espelho em frágeis figuras que ganham visibilidade sem justificativa plausível, fico mais propenso a me nivelar por baixo.
De certo modo a escolha desse caminho é pessoal, mas é importante sabermos que há escolha, isto é, podemos optar por investir nossa admiração em pessoas com conteúdo; a nutrirmos respeito por aqueles que têm algo para oferecer.
A história nos oferece bons nomes, não há dúvida; porém, nosso desafio é encontrar entre nossos contemporâneos nomes capazes de despertar em nós o desejo de admirá-las. É um exercício exigente, pois de um modo geral a mídia não nos ajuda muito, mas é importante que o façamos.
Há bons professores que merecem nossa admiração; há excelentes líderes religiosos que pela coerência e consistência podem despertar nosso respeito; há bons artistas (em todos os seguimentos) com os quais podemos construir visões muito especiais da realidade que nos cerca; há pais e mães (anônimos!) que labutam todos os dias e que são exemplos incríveis de fidelidade e de doação; há voluntários construindo um mundo alternativo e diferente em tantos lugares... definitivamente, se não quisermos, não precisamos ficar submissos ao império da futilidade que emana de "líderes" vazios. 

12 abril 2014

Crise de liderança e inversão de valores

A existência de líderes capazes de despertar a admiração, especialmente dos jovens, parece estar em crise. Temos acompanhado a situações questionáveis e preocupantes, pois cresce entre nós a idealização de pessoas cuja liderança funda-se em uma história incapaz de justificar a influência que tais líderes exercem sobre as pessoas.
Crianças, adolescentes ou jovens que manuseiam bem certas ferramentas tecnológicas tornam-se grandes referenciais. Tornam-se ídolos de número expressivo de seguidores. Passam a exercer domínio sobre seus admiradores; a serem citados e invocados como líderes. Tornam-se heróis; figuram como paradigmas a serem imitados ou representam a síntese da pessoa que "todos" gostariam de ser; uma espécie de ideal a ser alcançado, mesmo que por meio de grandes sacrifícios!
De um modo geral, a consagração desses líderes dos novos tempos se dá por meio do crescimento do número de seguidores. Quando avaliamos as razões que levaram à promoção de tais lideranças temos muita dificuldade de entender, efetivamente, o que ocorreu, pois na maioria dos casos (por amor e respeito ao debate não vou dizer todos!) as justificativas são fúteis e desprovidas de quaisquer fundamentos plausíveis.
Alguns compõem versos de pouquíssima qualidade; outros usam roupas ou adereços extravagantes; outros ainda dão dicas – meras opiniões subjetivas – sobre coisas que desconhecem e jamais vivenciaram.
A crítica não se direciona ao direito – fruto da liberdade de expressão – que todas essas pessoas têm de se manifestarem do modo como acham mais conveniente. De fato, todos têm liberdade de se expressarem como julgam melhor. Essa é uma sagrada garantia assegurada pelo Estado Democrático de Direito em que vivemos.
Para ser claro, a crítica está voltada para os seguidores. O que tem levado as pessoas a depositarem suas expectativas em líderes tão fracos? Por que tanta gente deixa de seguir sua própria razão, de construir sua autonomia para fazerem de suas vidas uma reprodução de perfis tão vazios?
Quando atribuímos a esses líderes um valor que eles não têm estamos nos nivelando por baixo e optando pela estagnação de nosso ser. Isso é grave, pois nossa existência adquire sentido, entre outras coisas, quando somos autônomos na condução das escolhas de nossa vida.
Por força da lógica que rege a internet, por influência do mercado ou por diversas outras razões muitas pessoas se deixam levar por propostas que são incompatíveis com sua identidade e com sua verdadeira forma de pensar.
Precisamos ficar atentos e nos perguntar: Que valores estamos defendendo quando nos tornamos seguidores de certos líderes? O que estamos construindo para nossa vida ao escolhermos como paradigmas líderes vazios e superficiais? Em que sociedade esperamos viver, no futuro, ao reconhecermos em comportamentos fúteis um valor muito superior ao que tem?
Não se trata de sermos conservadores ou fechados às novas tecnologias. Muito menos de defendermos que somente no passado existiam coisas boas, mas trata-se de atribuirmos a cada coisa, inclusive às inovações, o valor que de fato elas têm.

As futilidades ou brincadeiras devem ser tratadas como tais. O uso de certa figura como referência é coisa séria e precisa decorrer da reflexão e da crítica. 

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